Conheça as Novas Abordagens em Saúde Mental que rompem com o paradigma manicomial

As novas abordagens em saúde mental representam uma mudança na forma de compreender e cuidar do sofrimento psíquico. Baseadas no cuidado em liberdade, na participação ativa das pessoas e no respeito aos direitos humanos, essas práticas substituem modelos centrados na institucionalização por estratégias comunitárias e interdisciplinares. Neste artigo, você conhecerá os princípios dessas abordagens, exemplos de aplicação, evidências científicas que as sustentam e os desafios para sua consolidação no contexto brasileiro.
A saúde mental mudou — e a forma de cuidar das pessoas também.
Durante muito tempo, o cuidado em saúde mental esteve associado a uma lógica centrada na doença. O diagnóstico ocupava o centro das decisões clínicas e, em muitos casos, o tratamento significava afastar a pessoa do convívio social, restringindo sua autonomia e sua participação na própria vida. Hospitais psiquiátricos, internações prolongadas e práticas marcadas pelo isolamento foram, durante décadas, considerados respostas naturais ao sofrimento psíquico.
Hoje, essa compreensão vem sendo amplamente revisada.
Nas últimas décadas, pesquisadores, profissionais, usuários dos serviços de saúde, familiares e organismos internacionais passaram a defender outra maneira de compreender o sofrimento mental. Mais do que controlar sintomas, tornou-se necessário pensar em projetos de vida, vínculos sociais, direitos humanos, participação comunitária e autonomia. Essa transformação deu origem ao que hoje conhecemos como novas abordagens em saúde mental.
Embora utilizem diferentes estratégias clínicas e psicossociais, essas abordagens compartilham um mesmo princípio: reconhecer que cada pessoa vive sua experiência de maneira singular e que o cuidado precisa ser construído considerando sua história, seus desejos, seu contexto social e sua participação ativa nas decisões sobre o tratamento.
Essa mudança não representa apenas uma atualização de técnicas. Trata-se de uma transformação ética, política e científica que continua influenciando serviços de saúde, universidades e políticas públicas em diferentes países.
O que são as novas abordagens em saúde mental?

Quando falamos em novas abordagens em saúde mental, não estamos nos referindo a uma única metodologia ou a um protocolo específico. O termo engloba diferentes modelos de cuidado que surgiram ou ganharam força a partir das críticas ao paradigma manicomial e ao modelo exclusivamente biomédico.
Em comum, essas abordagens propõem que o sofrimento psíquico não seja reduzido apenas a um diagnóstico ou a alterações biológicas. Aspectos sociais, econômicos, culturais, familiares e afetivos também passam a ser considerados fundamentais para compreender a experiência de cada indivíduo.
Isso significa reconhecer que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem precisar de estratégias completamente diferentes de cuidado.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem reforçado essa perspectiva ao afirmar que a saúde mental é influenciada por diversos determinantes sociais, incluindo condições de trabalho, renda, educação, moradia, violência, discriminação e acesso a redes de apoio (WHO, 2022). Nesse contexto, o tratamento deixa de acontecer apenas dentro do consultório ou do hospital e passa a envolver diferentes espaços da vida cotidiana.
Mais do que reduzir sintomas, busca-se promover qualidade de vida, inclusão social e fortalecimento da autonomia.
Por que o paradigma manicomial passou a ser questionado?
Para compreender o surgimento dessas novas práticas, é preciso olhar para a história da assistência psiquiátrica.
Ao longo dos séculos XIX e XX, muitos países adotaram hospitais psiquiátricos como principal estratégia para tratar pessoas consideradas “loucas”, “incapazes” ou “perigosas”. Em teoria, essas instituições tinham como objetivo oferecer tratamento especializado. Na prática, porém, inúmeras delas transformaram-se em espaços de exclusão social.
Internações que deveriam durar semanas frequentemente se estendiam por anos ou até décadas. Muitas pessoas perdiam contato com familiares, deixavam de trabalhar, tinham sua identidade apagada e viviam submetidas a rotinas rígidas, muitas vezes marcadas por violência institucional.
Essas práticas passaram a ser fortemente questionadas após a Segunda Guerra Mundial, especialmente quando diferentes países começaram a investigar violações de direitos humanos ocorridas dentro dessas instituições.
Na Itália, o psiquiatra Franco Basaglia tornou-se um dos principais críticos desse modelo. Para ele, o hospital psiquiátrico não era apenas um local de tratamento, mas também um mecanismo de exclusão social que reforçava desigualdades e retirava das pessoas sua condição de cidadãs.
Seu trabalho influenciou profundamente a chamada Psiquiatria Democrática Italiana e culminou na Lei 180, de 1978, responsável pelo fechamento progressivo dos manicômios italianos e pela reorganização da assistência em saúde mental baseada em serviços comunitários.
As ideias de Basaglia atravessaram fronteiras e inspiraram movimentos semelhantes em diversos países, incluindo o Brasil.
A Reforma Psiquiátrica brasileira e a construção de um novo modelo de cuidado
No Brasil, as críticas ao modelo manicomial ganharam força principalmente a partir do final da década de 1970, impulsionadas pelo Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental, por pesquisadores, usuários e familiares que denunciavam as condições de muitos hospitais psiquiátricos brasileiros.
Mais do que substituir instituições, o movimento defendia uma mudança profunda na forma de compreender o sofrimento humano.
Segundo o psiquiatra e pesquisador Paulo Amarante, um dos principais nomes da Reforma Psiquiátrica brasileira, reformar a assistência em saúde mental significa transformar relações sociais, práticas profissionais e concepções sobre a loucura, e não apenas reorganizar serviços.
Esse processo resultou, anos depois, na aprovação da Lei nº 10.216/2001, considerada um marco da saúde mental brasileira. A legislação estabeleceu direitos das pessoas com transtornos mentais, priorizou o tratamento em serviços comunitários e determinou que a internação passasse a ser utilizada apenas quando os recursos extra-hospitalares fossem insuficientes. Na prática, a lei consolidou o princípio do cuidado em liberdade.
Essa mudança também impulsionou a expansão da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), fortalecendo serviços territoriais como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), residências terapêuticas e equipes multiprofissionais.
Mais do que tratar doenças: compreender pessoas

Uma das maiores contribuições das novas abordagens em saúde mental foi ampliar a pergunta que orienta o cuidado. Durante muito tempo, profissionais concentravam seus esforços em responder: “Qual é o diagnóstico dessa pessoa?”
Hoje, outra pergunta ganha espaço: “O que aconteceu com essa pessoa e como podemos construir, juntos, caminhos possíveis de cuidado?”. Essa mudança parece simples, mas modifica profundamente a prática clínica.
Em vez de compreender o indivíduo apenas pelos sintomas que apresenta, passa-se a considerar sua trajetória de vida, suas relações familiares, suas experiências de violência, perdas, exclusão social, pertencimento cultural e expectativas para o futuro.
Isso não significa abandonar diagnósticos ou tratamentos medicamentosos quando são necessários. Ao contrário. As novas abordagens defendem que esses recursos sejam utilizados de forma integrada, respeitando a singularidade de cada pessoa e evitando que o diagnóstico se torne sua única identidade.
Como destaca Benedetto Saraceno, ex-diretor do Departamento de Saúde Mental da Organização Mundial da Saúde, o maior desafio contemporâneo não é apenas ampliar o acesso aos serviços, mas construir sistemas capazes de promover cidadania, autonomia e inclusão social.
Essa perspectiva vem sendo fortalecida por diferentes estudos internacionais, que demonstram que intervenções centradas na recuperação, na participação social e na construção de vínculos apresentam resultados consistentes na melhoria da qualidade de vida de pessoas em sofrimento psíquico.
Novas abordagens em saúde mental e o cuidado em liberdade
Talvez nenhuma expressão represente tão bem as novas abordagens quanto o conceito de cuidado em liberdade.
Isso não significa negar que algumas pessoas possam precisar de internação em momentos de crise. Em determinadas situações, esse recurso continua sendo importante e pode salvar vidas. A diferença está na forma como essa internação é compreendida.
Ela deixa de ser o centro do tratamento para tornar-se uma estratégia temporária, utilizada apenas quando realmente necessária e pelo menor tempo possível.
O restante do cuidado acontece onde a vida acontece: na família, no território, nos serviços comunitários, na escola, no trabalho, nos grupos terapêuticos e nas redes de apoio.
Essa lógica fortalece vínculos sociais, reduz o estigma e amplia as possibilidades de recuperação, permitindo que a pessoa continue exercendo seus diferentes papéis sociais enquanto recebe acompanhamento profissional.
Além disso, o cuidado em liberdade reconhece que autonomia não significa ausência de suporte. Pelo contrário, significa construir condições para que cada indivíduo participe ativamente das decisões sobre sua própria vida, contando com o apoio de profissionais, familiares e comunidade quando necessário.
Quais são as principais novas abordagens em saúde mental?
Embora as novas abordagens em saúde mental compartilhem princípios comuns, elas não constituem um modelo único. Ao contrário, reúnem diferentes práticas desenvolvidas em países e contextos distintos, mas que convergem na defesa de um cuidado mais humanizado, participativo e baseado em evidências.
O que une essas experiências é a compreensão de que o sofrimento psíquico não pode ser tratado apenas como um fenômeno biológico. Aspectos como relações familiares, condições de vida, acesso a direitos, vínculos comunitários e experiências pessoais também influenciam diretamente os processos de cuidado e recuperação.
A seguir, conheça algumas das abordagens que vêm transformando a assistência em saúde mental no Brasil e no mundo.
Recovery: recuperar a vida, e não apenas controlar sintomas

Entre as abordagens contemporâneas mais influentes está o Recovery, conceito desenvolvido a partir das experiências de pessoas que utilizavam serviços de saúde mental e reivindicavam maior participação nas decisões sobre seus próprios tratamentos.
Ao contrário do que o termo pode sugerir, Recovery não significa necessariamente “cura”. A proposta é compreender a recuperação como um processo contínuo de reconstrução da vida, mesmo quando alguns sintomas permanecem presentes.
O psicólogo norte-americano William Anthony, referência internacional nessa área, definiu Recovery como “um processo profundamente pessoal e único de mudança de atitudes, valores, sentimentos, objetivos, habilidades e papéis” (Anthony, 1993).
Na prática, isso significa que uma pessoa pode continuar convivendo com um transtorno mental e, ainda assim, construir uma vida significativa, desenvolver relações afetivas, trabalhar, estudar e participar da comunidade.
Essa perspectiva desloca o foco da pergunta “como eliminar completamente os sintomas?” para “como apoiar essa pessoa na construção da vida que deseja viver?”.
Hoje, princípios do Recovery orientam políticas públicas em países como Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, além de inspirarem diversas experiências brasileiras.
O Recovery é uma das abordagens mais influentes da saúde mental contemporânea e propõe uma mudança de perspectiva: colocar a pessoa, e não apenas o diagnóstico, no centro do cuidado. Conheça seus princípios, sua origem e sua aplicação na prática clínica. Leia também: https://blog.cenatcursos.com.br/o-que-e-recovery-em-saude-mental/
Movimento Internacional de Ouvidores de Vozes

Outra abordagem que ganhou reconhecimento internacional é o Movimento Internacional de Ouvidores de Vozes (Hearing Voices Movement).
Durante muitos anos, ouvir vozes foi interpretado quase exclusivamente como um sintoma patológico que precisava ser eliminado. Entretanto, pesquisadores como Marius Romme e Sandra Escher observaram que essa experiência é muito mais diversa do que se imaginava.
Em estudos realizados com centenas de participantes, os autores identificaram que muitas pessoas conviviam com as vozes sem necessariamente apresentar sofrimento intenso ou prejuízo significativo em suas vidas.
A partir dessas observações, surgiu uma proposta diferente: em vez de combater automaticamente as vozes, buscar compreender seu significado, sua relação com experiências de vida e as estratégias que cada pessoa desenvolve para lidar com elas.
Essa mudança não significa negar o sofrimento ou abandonar tratamentos quando necessários. O objetivo é ampliar o diálogo, reduzir o estigma e reconhecer que a experiência humana não pode ser interpretada apenas por categorias diagnósticas.
Hoje, grupos de Ouvidores de Vozes existem em dezenas de países e também fazem parte de experiências brasileiras voltadas ao cuidado em liberdade.
O Movimento Internacional de Ouvidores de Vozes propõe uma nova forma de compreender a experiência de ouvir vozes, valorizando a escuta, a construção de significado e o protagonismo das pessoas em seu processo de cuidado. Para aprofundar esse tema, conheça o curso do CENAT.
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Redução de Danos: cuidado sem imposições
Entre as novas abordagens em saúde mental, a Redução de Danos ocupa um papel importante, especialmente no cuidado às pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas.
Durante muito tempo, predominou a ideia de que a abstinência deveria ser o único objetivo possível do tratamento. Embora esse caminho seja desejado por muitas pessoas, ele nem sempre corresponde às possibilidades ou aos desejos de todos os usuários.
A Redução de Danos propõe uma lógica diferente. Em vez de estabelecer metas únicas e rígidas, busca construir estratégias que reduzam riscos, fortaleçam vínculos e ampliem o acesso aos serviços de saúde.
Isso pode incluir ações como orientação sobre formas mais seguras de consumo, prevenção de infecções, acompanhamento multiprofissional e construção gradual de mudanças, respeitando o momento de cada indivíduo.
Segundo a Organização Mundial da Saúde e o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), estratégias de Redução de Danos apresentam evidências consistentes na diminuição de mortes, infecções e outras consequências associadas ao uso problemático de substâncias.
Open Dialogue: quando o diálogo se torna parte do tratamento

Desenvolvido na Finlândia na década de 1980, o Open Dialogue (Diálogo Aberto) é considerado uma das experiências mais inovadoras da saúde mental contemporânea.
Seu princípio central é simples, mas profundamente transformador: as decisões sobre o cuidado não devem acontecer apenas entre profissionais, mas também envolver a própria pessoa, sua família e outras pessoas significativas de sua rede de apoio.
Sempre que possível, as reuniões ocorrem com todos os envolvidos presentes, favorecendo a construção coletiva das estratégias terapêuticas.
Estudos realizados pelo grupo coordenado por Jaakko Seikkula, na Finlândia, indicaram resultados promissores, especialmente em casos de primeiros episódios psicóticos, incluindo menor necessidade de internações prolongadas e melhor reinserção social.
Embora ainda existam debates sobre sua implementação em diferentes contextos, o Open Dialogue vem influenciando práticas em diversos países.
O Open Dialogue (Diálogo Aberto) é uma abordagem reconhecida internacionalmente por fortalecer o cuidado em rede, a participação das famílias e a construção coletiva das decisões terapêuticas. Se você deseja incorporar essa perspectiva à sua prática profissional, conheça a pós-graduação do CENAT.
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Gestão Autônoma da Medicação
Outra proposta que dialoga com as novas abordagens em saúde mental é a Gestão Autônoma da Medicação (GAM).
Criada inicialmente no Canadá e posteriormente adaptada para diferentes países, incluindo o Brasil, a GAM não defende que os medicamentos sejam abandonados.
Seu objetivo é outro: fortalecer a participação das pessoas nas decisões relacionadas ao uso dessas medicações.
Questões como efeitos colaterais, expectativas, dúvidas e preferências passam a fazer parte da conversa entre profissionais e usuários.
Essa prática favorece uma relação mais horizontal e contribui para maior adesão ao tratamento, uma vez que as decisões deixam de ser exclusivamente prescritivas.
Apoio por pares: a experiência também produz conhecimento

Uma das mudanças mais significativas das últimas décadas foi reconhecer que pessoas que vivenciaram o sofrimento psíquico também possuem conhecimentos importantes para compartilhar.
O chamado apoio por pares (peer support) baseia-se justamente nessa ideia.
Profissionais com experiência vivida ou pessoas que passaram por processos de recuperação podem atuar oferecendo acolhimento, escuta e apoio a outras pessoas em situações semelhantes.
Pesquisas internacionais mostram que essa estratégia contribui para reduzir sentimentos de isolamento, fortalecer a esperança e ampliar o engajamento nos serviços de saúde.
Mais do que uma técnica, trata-se do reconhecimento de que diferentes formas de conhecimento podem coexistir na construção do cuidado.
O papel da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
No contexto brasileiro, muitas dessas abordagens encontram espaço na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), instituída em 2011 pelo Ministério da Saúde.
A RAPS foi criada para organizar uma rede integrada de serviços voltados ao cuidado das pessoas em sofrimento psíquico e com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas.
Entre seus principais componentes estão:
- Centros de Atenção Psicossocial (CAPS);
- Atenção Primária à Saúde;
- Serviços Residenciais Terapêuticos;
- Unidades de Acolhimento;
- Consultórios na Rua;
- Leitos de saúde mental em hospitais gerais.
A proposta é garantir continuidade do cuidado, evitando que o tratamento fique restrito aos momentos de crise.
Mais do que oferecer atendimento especializado, a RAPS busca fortalecer a circulação das pessoas em seus territórios, ampliar redes de apoio e promover inclusão social.
Quais evidências científicas sustentam essas mudanças?
As novas abordagens em saúde mental não surgiram apenas por razões éticas ou políticas. Elas também são apoiadas por um conjunto crescente de pesquisas científicas.
O relatório World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All, publicado pela Organização Mundial da Saúde em 2022, destaca que serviços comunitários, participativos e centrados na pessoa apresentam melhores condições para promover recuperação, autonomia e respeito aos direitos humanos.
A Lancet Commission on Global Mental Health and Sustainable Development também defende que os sistemas de saúde mental precisam superar modelos centrados exclusivamente em hospitais psiquiátricos, investindo em serviços comunitários, prevenção e participação social.
No Brasil, pesquisadores vinculados à Fiocruz, universidades públicas e à Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME) vêm produzindo evidências sobre os impactos positivos da Reforma Psiquiátrica e dos serviços territoriais, especialmente na redução de internações de longa permanência e no fortalecimento dos vínculos comunitários.
Embora ainda existam desafios relacionados ao financiamento e à expansão desses serviços, o consenso científico aponta para a necessidade de consolidar modelos cada vez mais humanizados.
Os desafios permanecem
Apesar dos avanços conquistados nas últimas décadas, a consolidação dessas abordagens ainda enfrenta importantes obstáculos.
O primeiro deles diz respeito ao estigma.
Pessoas em sofrimento psíquico continuam sendo alvo de preconceitos que dificultam o acesso ao trabalho, à educação e até mesmo aos serviços de saúde.
Outro desafio envolve a formação profissional.
Muitos cursos de graduação ainda concentram boa parte de seus conteúdos em modelos biomédicos tradicionais, dedicando menos espaço às práticas psicossociais, ao cuidado em liberdade e às estratégias de participação dos usuários.
Também persistem dificuldades relacionadas ao financiamento das políticas públicas, à desigualdade regional na oferta de serviços e à necessidade permanente de qualificação das equipes multiprofissionais.
Superar esses desafios depende de investimentos, produção científica, educação permanente e fortalecimento das redes comunitárias.
Por que investir nas novas abordagens em saúde mental?

As novas abordagens em saúde mental representam uma das transformações mais importantes ocorridas na assistência psicossocial nas últimas décadas. Ao romperem com o paradigma manicomial, elas propõem uma mudança que vai além da reorganização dos serviços: convidam profissionais, gestores e a sociedade a repensarem a forma como compreendem o sofrimento humano.
Em vez de reduzir a pessoa ao diagnóstico, essas abordagens reconhecem sua história, seus vínculos, seus direitos e sua capacidade de participar ativamente do próprio cuidado. O tratamento deixa de ser entendido como um conjunto de intervenções isoladas e passa a ser construído em diálogo com a comunidade, com a família e com os diferentes recursos disponíveis no território.
Esse movimento está alinhado às recomendações da Organização Mundial da Saúde, às evidências científicas mais recentes e aos princípios da Reforma Psiquiátrica brasileira. Embora os desafios ainda sejam significativos, especialmente no que se refere ao combate ao estigma e ao fortalecimento das políticas públicas, o avanço dessas práticas demonstra que é possível construir formas de cuidado mais humanas, inclusivas e efetivas.
Para os profissionais da área, acompanhar essas transformações deixou de ser apenas um diferencial. Tornou-se uma necessidade para quem deseja oferecer um cuidado ético, atualizado e comprometido com a promoção da autonomia, da cidadania e da saúde mental em sua dimensão mais ampla.
Quer se aprofundar nas novas abordagens em saúde mental?
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Perguntas frequentes (FAQ)
1. O que são as novas abordagens em saúde mental?
As novas abordagens em saúde mental são modelos de cuidado que priorizam o cuidado em liberdade, a autonomia das pessoas, a atuação interdisciplinar e o respeito aos direitos humanos. Seu objetivo é promover a recuperação e a inclusão social, considerando que o sofrimento psíquico é influenciado por fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais.
2. Qual é a diferença entre o paradigma manicomial e as novas abordagens?
O paradigma manicomial concentrava o tratamento em hospitais psiquiátricos, com internações prolongadas e pouca participação da pessoa nas decisões sobre seu cuidado. Já as novas abordagens valorizam serviços comunitários, projetos terapêuticos compartilhados e estratégias que favoreçam a permanência da pessoa em seu território e em sua rede de apoio.
3. Quais são os princípios das novas abordagens em saúde mental?
Entre os principais princípios estão o cuidado em liberdade, o respeito aos direitos humanos, a participação ativa da pessoa no tratamento, o trabalho interdisciplinar, a valorização da singularidade de cada trajetória e a promoção da inclusão social.
4. Quais são os principais modelos de cuidado utilizados atualmente?
Os modelos mais conhecidos incluem o Recovery, o Movimento Internacional de Ouvidores de Vozes, a Redução de Danos, o Open Dialogue, a Gestão Autônoma da Medicação (GAM) e o apoio por pares. Todos compartilham a proposta de construir o cuidado de forma colaborativa e centrada na pessoa.
5. O que é o Recovery em saúde mental?
Recovery é uma abordagem que entende a recuperação como um processo individual de construção de uma vida com sentido, independentemente da presença ou ausência de sintomas. O foco deixa de ser apenas o controle da doença e passa a incluir autonomia, participação social e qualidade de vida.
6. O que é a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)?
A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) é um conjunto de serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) organizado para oferecer cuidado integral às pessoas em sofrimento psíquico. Ela integra dispositivos como os CAPS, a Atenção Primária, os Serviços Residenciais Terapêuticos e os Consultórios na Rua.
7. As novas abordagens são baseadas em evidências científicas?
Sim. Organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e a Lancet Commission on Global Mental Health and Sustainable Development apontam que serviços comunitários, cuidados centrados na pessoa e estratégias de participação social apresentam resultados positivos para a recuperação e a promoção dos direitos humanos.
8. Quem pode atuar com essas abordagens?
Psicólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, médicos, assistentes sociais, profissionais da Atenção Primária, educadores físicos e outros trabalhadores da saúde podem incorporar essas práticas, desde que recebam formação e educação permanente compatíveis com esse modelo de cuidado.
9. Por que essas abordagens são importantes para o futuro da saúde mental?
Porque respondem aos desafios contemporâneos de forma mais abrangente, reconhecendo que a saúde mental depende não apenas de intervenções clínicas, mas também do acesso a direitos, da participação comunitária, da redução do estigma e da construção de redes de apoio.
10. Como os profissionais podem se preparar para atuar com essas novas abordagens?
A qualificação profissional é um dos pilares para a consolidação dessas práticas. Investir em formação continuada, conhecer experiências nacionais e internacionais, aprofundar-se em temas como Reforma Psiquiátrica, RAPS, Recovery, Redução de Danos e cuidado em liberdade permite desenvolver competências alinhadas às recomendações científicas e às políticas públicas atuais.
Referências
AMARANTE, Paulo. Saúde Mental e Atenção Psicossocial. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2007.
ANTHONY, William A. Recovery from Mental Illness: The Guiding Vision of the Mental Health Service System in the 1990s. Psychosocial Rehabilitation Journal, v. 16, n. 4, 1993.
BASAGLIA, Franco. A Instituição Negada. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
BRASIL. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.
BRASIL. Ministério da Saúde. Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
ROMME, Marius; ESCHER, Sandra. Accepting Voices. London: Mind Publications, 1993.
SARACENO, Benedetto. Libertando Identidades: da Reabilitação Psicossocial à Cidadania Possível. Belo Horizonte: TeCorá, 1999.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All. Geneva: WHO, 2022.
