Como o racismo e a desigualdade operam como determinantes do adoecimento psíquico
Falar sobre saúde mental é falar também sobre as condições em que as pessoas vivem.
Nem todo sofrimento psíquico pode ser compreendido apenas a partir da história individual, dos sintomas ou das características de uma pessoa. Antes de chegar a um consultório ou a um serviço de saúde, cada indivíduo já passou por diferentes experiências familiares, escolares, profissionais e sociais. Algumas dessas experiências oferecem proteção e possibilidades de desenvolvimento; outras podem produzir insegurança, exclusão, violência e sofrimento.
É justamente nessa relação entre vida social e saúde que entram os determinantes sociais da saúde.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define esses determinantes como as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem, além das forças econômicas, sociais e políticas que moldam essas condições. Renda, educação, moradia, alimentação, trabalho, proteção social e acesso a recursos são, portanto, elementos que participam da construção da saúde e da distribuição das desigualdades entre diferentes grupos.
Quando essa discussão chega ao campo da saúde mental, algumas perguntas se tornam inevitáveis: o que acontece quando uma pessoa vive durante anos em condições de insegurança? O que significa enfrentar discriminação repetidamente? Como a pobreza, a violência e a falta de acesso a direitos podem interferir na maneira como alguém se relaciona consigo mesmo, com os outros e com o futuro?
Essas perguntas são importantes porque ajudam a deslocar o olhar de uma compreensão exclusivamente individual do sofrimento.
No Brasil, essa discussão também passa necessariamente pelo racismo. O próprio Ministério da Saúde reconhece o racismo como um determinante social da saúde e aponta sua relação com as condições de vida e com as desigualdades que atingem a população negra.
Isso não significa afirmar que o racismo explique sozinho todos os processos de adoecimento. A saúde mental é complexa e resulta da interação de fatores biológicos, psicológicos, relacionais e sociais. O que significa reconhecer o racismo como determinante social é compreender que a exposição a desigualdades e discriminações pode influenciar as condições nas quais o sofrimento aparece, se intensifica ou encontra obstáculos para ser cuidado.
Para aprofundar a relação entre racismo e sofrimento psíquico, vale também compreender como essas experiências atravessam especificamente a saúde mental da população negra. O CENAT aborda essa discussão no artigo O impacto do racismo na saúde mental
O que são os determinantes sociais da saúde?
Durante muito tempo, o processo saúde-doença foi explicado principalmente a partir de fatores biológicos. Essa perspectiva foi fundamental para o desenvolvimento da medicina e continua sendo indispensável, mas ela não consegue explicar sozinha por que determinados grupos apresentam condições de saúde tão diferentes de outros.
Duas pessoas podem ter a mesma idade, por exemplo, e viver em cidades próximas, mas suas possibilidades de saúde podem ser completamente diferentes dependendo de renda, escolaridade, moradia, trabalho, alimentação, segurança e acesso aos serviços.
É essa dimensão que o conceito de determinantes sociais da saúde procura evidenciar.
A OMS explica que esses determinantes envolvem as condições de vida e também o acesso das pessoas a poder, dinheiro e recursos. Essas condições não surgem por acaso: são influenciadas por políticas econômicas, sistemas sociais, decisões políticas e pela maneira como uma sociedade distribui oportunidades e recursos.
Por isso, falar em determinantes sociais da saúde é falar também em desigualdade.
Não basta perguntar se uma pessoa tem acesso a um serviço de saúde. É preciso considerar se ela consegue chegar até esse serviço, se possui tempo para ser atendida, se consegue manter o acompanhamento, se sente-se respeitada naquele espaço e se outras condições da sua vida permitem que o cuidado tenha continuidade.
A saúde, nesse sentido, não começa no momento em que alguém entra em uma unidade de atendimento. Ela começa muito antes, nas condições concretas em que essa pessoa vive.
Determinantes sociais da saúde mental: quando o contexto também importa

A saúde mental não pode ser reduzida à ausência de transtornos mentais. Ela envolve bem-estar, vínculos, autonomia, participação social, capacidade de construir projetos e possibilidade de lidar com as dificuldades da vida.
Essa perspectiva também aparece na discussão sobre saúde mental das populações vulnerabilizadas, especialmente quando desigualdades sociais, racismo, pobreza e exclusão interferem nas possibilidades de cuidado. Para aprofundar o tema, confira Precisamos falar sobre a saúde mental das populações vulnerabilizada
Por isso, o ambiente em que uma pessoa vive pode ter uma influência importante sobre sua saúde mental.
A OMS e a Fundação Calouste Gulbenkian destacam que a saúde mental e muitos transtornos mentais comuns são influenciados por ambientes sociais, econômicos e físicos ao longo das diferentes etapas da vida. O documento também aponta que os fatores de risco para diversos transtornos estão fortemente associados às desigualdades sociais: quanto maior a desigualdade, maior tende a ser a desigualdade na exposição aos riscos.
Imagine duas pessoas que perdem o emprego no mesmo período.
Para uma delas, a perda pode significar uma mudança difícil, mas administrável. Ela pode ter uma reserva financeira, morar em uma casa própria, contar com familiares que podem ajudar e possuir tempo para procurar outra oportunidade.
Para outra, a mesma situação pode significar não conseguir pagar o aluguel, acumular dívidas, reduzir a alimentação da família e interromper um tratamento de saúde.
O acontecimento é parecido, mas as condições para enfrentá-lo são muito diferentes.
Essa diferença é importante para compreender o que são os determinantes sociais da saúde. Não se trata de dizer que determinada condição social provoca automaticamente uma doença mental. Trata-se de reconhecer que as circunstâncias da vida distribuem de maneira desigual tanto os riscos quanto os recursos disponíveis para lidar com eles.
Racismo também é uma questão de saúde

Quando o racismo aparece nas discussões sobre saúde, muitas vezes ele é tratado como uma questão exclusivamente social ou moral. No entanto, suas consequências também alcançam diretamente as condições de saúde.
O Ministério da Saúde reconhece que o racismo interfere nas condições de vida da população negra e está relacionado a desigualdades em diferentes áreas, incluindo acesso a serviços, trabalho, educação, moradia e outros fatores que influenciam a saúde.
Uma revisão de escopo publicada em 2026 na revista Ciência & Saúde Coletiva reforça essa perspectiva. O estudo identificou diferentes formas de compreender o racismo como determinante social da saúde no Brasil, incluindo o racismo estrutural, institucional, vicário e antinegro. Os autores destacam que esses mecanismos atuam por meio de processos históricos, sociais e simbólicos que organizam desigualdades nas relações entre indivíduos e instituições.
Isso ajuda a compreender por que não basta observar apenas episódios explícitos de preconceito.
O racismo também pode aparecer na forma como oportunidades são distribuídas, como instituições funcionam e como determinados grupos são tratados dentro delas.
Essa dimensão é especialmente importante para a saúde mental porque a vida psíquica não é construída fora das relações sociais. As experiências que uma pessoa acumula ao longo do tempo podem influenciar sua autoestima, sua percepção de segurança, seus vínculos e sua relação com diferentes espaços sociais.
Racismo estrutural e produção de desigualdades
O racismo estrutural diz respeito à maneira como desigualdades raciais podem estar incorporadas ao funcionamento da própria sociedade, produzindo efeitos que ultrapassam atitudes individuais.
Isso significa que uma situação de desigualdade não precisa resultar de uma decisão consciente tomada por uma única pessoa para produzir consequências reais.
Quando determinados grupos encontram mais obstáculos para acessar educação de qualidade, empregos protegidos, renda, moradia adequada ou serviços, essas diferenças acabam interferindo também em suas condições de saúde.
No Brasil, essa discussão possui uma dimensão histórica. A desigualdade racial não surgiu recentemente e não pode ser compreendida separadamente da formação social do país.
O Ministério da Saúde reconhece que a população negra está exposta a condições de vulnerabilidade relacionadas a processos socioeconômicos e culturais que contribuem para desigualdades em saúde. A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, por sua vez, reconhece o racismo e as desigualdades étnico-raciais como determinantes sociais das condições de saúde.
Para a saúde mental, isso significa que a experiência individual precisa ser analisada dentro de um contexto mais amplo.
Se uma pessoa está mais exposta a determinadas formas de violência, precarização, discriminação ou insegurança, não é possível compreender seu sofrimento sem considerar essas circunstâncias.
O racismo cotidiano e a experiência subjetiva

Existe ainda o racismo vivido no cotidiano, em situações que podem parecer pequenas quando observadas isoladamente, mas que ganham outro peso quando se repetem ao longo da vida.
Ser questionado constantemente sobre a própria competência, perceber que está sendo seguido dentro de uma loja, ouvir comentários sobre aparência, ter sua fala desacreditada ou sentir que precisa provar repetidamente que merece estar em determinado espaço são experiências que podem produzir desgaste.
O impacto não está necessariamente em um episódio específico. Muitas vezes, ele aparece justamente no acúmulo.
A pessoa passa a antecipar determinadas situações, a escolher cuidadosamente como se comportar em alguns ambientes ou a desenvolver estratégias para evitar novas experiências de discriminação. Com o tempo, essa necessidade constante de avaliação pode interferir na sensação de segurança e pertencimento.
Isso não significa que todas as pessoas respondam da mesma maneira a experiências de racismo. As trajetórias são diferentes, assim como as redes de apoio, os recursos pessoais e as formas de resistência.
Mas reconhecer a possibilidade de impacto é importante para evitar que o sofrimento seja tratado como uma característica individual quando, na realidade, está relacionado a experiências sociais concretas.
A desigualdade econômica também afeta a saúde mental
A desigualdade econômica costuma ser discutida em termos de renda, mas seus efeitos ultrapassam o valor que aparece no contracheque no final do mês.
A renda influencia onde uma pessoa pode morar, como ela se desloca pela cidade, que tipo de alimentação consegue manter, quais oportunidades educacionais estão disponíveis e até quanto tempo possui para descansar.
Para quem vive com poucos recursos, uma despesa inesperada pode adquirir uma dimensão muito maior. Uma consulta médica pode significar um dia de trabalho perdido. Uma mudança de emprego pode colocar o aluguel em risco. Uma dívida pode comprometer a alimentação da família. Uma emergência pode consumir aquilo que estava reservado para outras necessidades.
Quando situações desse tipo se repetem, a preocupação financeira deixa de ser apenas uma questão pontual e passa a fazer parte da rotina.
É importante não transformar essa relação em uma fórmula simplista. Nem toda pessoa em situação de pobreza desenvolverá um transtorno mental, assim como pessoas com maior renda também podem adoecer. O ponto é que a desigualdade interfere na exposição a diferentes fatores de risco e também na quantidade de recursos disponíveis para enfrentá-los.
A OMS destaca que a saúde acompanha um gradiente social: em diferentes contextos, condições socioeconômicas menos favoráveis estão associadas a piores resultados de saúde.
Trabalho, precarização e sofrimento psíquico

O trabalho ocupa uma parte significativa da vida adulta. Ele pode representar renda, autonomia, reconhecimento, vínculos e pertencimento, mas também pode se tornar uma fonte importante de sofrimento quando é marcado por precarização.
Jornadas excessivas, baixos salários, insegurança contratual, assédio, discriminação e ausência de autonomia são exemplos de condições que podem comprometer o bem-estar.
A situação fica ainda mais complexa quando desigualdades raciais interferem no acesso a oportunidades profissionais.
Se determinados grupos encontram mais dificuldades para ocupar posições de maior reconhecimento, receber salários melhores ou acessar empregos protegidos, eles podem ficar mais expostos a condições de trabalho que dificultam a manutenção da saúde.
Essa relação também ajuda a entender por que os determinantes sociais da saúde não devem ser analisados separadamente. Trabalho e renda estão relacionados à moradia, ao transporte, à alimentação, ao acesso ao lazer e à possibilidade de buscar atendimento quando necessário.
Uma pessoa que trabalha muitas horas, leva horas para chegar ao emprego e depende integralmente daquele salário pode ter muito menos margem para interromper suas atividades quando começa a apresentar sinais de sofrimento.
Moradia e território também fazem parte da saúde

A maneira como uma pessoa vive em seu território influencia suas possibilidades de cuidado.
Morar em uma região com transporte acessível, saneamento, escolas, equipamentos culturais, áreas de lazer e serviços de saúde oferece oportunidades diferentes daquelas disponíveis em locais onde esses recursos são escassos ou distantes.
Essa diferença pode aparecer de maneira bastante concreta. Se um serviço de saúde fica longe, o deslocamento pode consumir horas e dificultar a continuidade do acompanhamento, especialmente para quem depende de transporte público ou possui uma rotina de trabalho rígida. Em territórios marcados pela violência, também pode haver restrições à circulação e ao uso de espaços públicos. Quando faltam locais de convivência e atividades comunitárias, as oportunidades de estabelecer vínculos podem diminuir.
A insegurança habitacional acrescenta outra dimensão ao problema. Viver com a possibilidade de perder a moradia, mudar constantemente de endereço ou dividir um espaço inadequado com muitas pessoas produz uma instabilidade que não pode ser separada da saúde mental.
Por isso, território não deve ser entendido apenas como um endereço. Ele reúne as condições materiais de vida, as relações sociais, os recursos disponíveis e as experiências que uma pessoa constrói naquele espaço.
Para os profissionais de saúde mental, conhecer o território é também conhecer parte da história de quem está sendo atendido.
Violência, insegurança e saúde mental
A violência é outro elemento importante quando se discute a relação entre determinantes sociais e adoecimento psíquico.
Ela pode acontecer dentro de casa, no território, nas instituições, no trabalho ou em relações atravessadas por desigualdades raciais e de gênero. Algumas pessoas vivenciam a violência diretamente; outras convivem durante longos períodos com o medo de que algo aconteça consigo, com familiares ou com pessoas próximas.
Esse tipo de insegurança pode modificar a relação com o próprio território.
Horários, trajetos e lugares passam a ser escolhidos levando em consideração a necessidade de proteção. Uma atividade simples, como caminhar até um comércio ou voltar para casa depois do trabalho, pode exigir planejamento que outras pessoas não precisam fazer.
Quando a necessidade de permanecer em alerta se torna parte da rotina, ela pode interferir no descanso, na circulação, nos relacionamentos e na sensação de liberdade.
A violência, portanto, não precisa acontecer diariamente para afetar a vida de alguém. A ameaça, o medo e a experiência de viver em um ambiente percebido como inseguro também fazem parte dessa equação.
A importância da interseccionalidade

Racismo, pobreza, desigualdade de gênero, violência e outras formas de vulnerabilidade não atuam necessariamente de maneira independente.
Uma pessoa pode experimentar simultaneamente desigualdades relacionadas à raça, gênero, classe social, território, deficiência ou idade. Essas dimensões podem se cruzar e produzir experiências específicas, que não podem ser explicadas adequadamente quando cada fator é analisado separadamente.
É nesse contexto que o conceito de interseccionalidade se torna importante.
Imagine, por exemplo, uma mulher negra que vive em uma região periférica, trabalha em condições precárias e é responsável sozinha pelo cuidado dos filhos. Sua experiência de saúde mental não pode ser explicada apenas pelo gênero, apenas pela raça ou apenas pela situação econômica.
Essas condições se relacionam.
Ao mesmo tempo, é importante não reduzir essas pessoas à vulnerabilidade. Comunidades, famílias, coletivos, movimentos sociais e redes de solidariedade também podem produzir proteção, pertencimento e resistência.
Uma análise interseccional precisa enxergar tanto os obstáculos quanto os recursos que as pessoas constroem para enfrentá-los.
Amplie seu olhar sobre saúde mental e mulheridades
Compreender o sofrimento psíquico também exige olhar para as relações de gênero, raça, classe, território e outras desigualdades que atravessam as experiências das mulheres. A Pós-Graduação em Saúde Mental e Mulheridades do CENAT propõe uma formação crítica e aprofundada para profissionais que desejam compreender essas diferentes dimensões do cuidado.
Aprofunde sua formação e esteja preparado para construir práticas de saúde mental mais contextualizadas, inclusivas e comprometidas com a realidade das mulheres.
Quando o sofrimento é individualizado
Um dos riscos de uma abordagem exclusivamente individual é transformar problemas sociais em características pessoais.
Uma pessoa que está exausta depois de anos submetida a condições abusivas de trabalho pode ser compreendida apenas como alguém “ansioso”. Alguém que enfrenta discriminação repetidamente pode ser considerado “sensível demais”. Uma pessoa que vive sob insegurança financeira pode receber orientações para controlar a preocupação sem que suas condições materiais sejam discutidas.
Isso não significa que o cuidado psicológico deixe de ser importante.
A psicoterapia, o acompanhamento psiquiátrico e outros recursos podem ser fundamentais para ajudar uma pessoa a compreender o próprio sofrimento e construir estratégias para lidar com ele.
A questão é outra: o cuidado não deve transformar exclusivamente o indivíduo em responsável por se adaptar a uma realidade que também pode estar produzindo seu sofrimento.
Existe uma diferença importante entre oferecer recursos para que alguém enfrente uma situação difícil e dizer, direta ou indiretamente, que a solução depende apenas de sua capacidade de lidar melhor com ela.
O sofrimento psíquico não acontece no vazio

Uma avaliação em saúde mental precisa considerar a história da pessoa.
Isso inclui compreender quando os sintomas começaram, o que estava acontecendo naquele período, quais mudanças ocorreram em sua vida e como são suas relações familiares, profissionais e comunitárias.
Perguntar apenas “quais são os sintomas?” pode ser insuficiente.
Em alguns casos, uma mudança de emprego ajuda a entender o início de um quadro de sofrimento. Em outros, pode ser uma experiência de violência, uma dificuldade financeira, uma mudança de moradia ou uma situação de discriminação.
Nenhum desses acontecimentos explica sozinho uma condição de saúde mental. Mas eles podem fazer parte da história que permite compreender por que aquele sofrimento apareceu naquele momento.
O papel da escuta qualificada

Uma escuta qualificada não significa apenas ouvir o que a pessoa está dizendo. Significa tentar compreender o sentido daquela experiência dentro de sua trajetória.
Quando alguém relata uma situação de racismo, por exemplo, o profissional precisa evitar partir automaticamente da ideia de que houve exagero ou de que se trata apenas de uma interpretação individual. Aquela experiência pode fazer parte de uma sequência de episódios semelhantes e ter um impacto diferente quando considerada dentro da história daquela pessoa.
Isso exige formação sobre relações raciais, desigualdades, território, direitos humanos e políticas públicas. Também exige disposição para reconhecer os próprios preconceitos e compreender que profissionais e instituições não estão completamente fora das estruturas sociais que produzem desigualdades.
O cuidado começa, muitas vezes, pela possibilidade de falar sobre aquilo que realmente está acontecendo.
Saúde mental e cuidado antirracista
Uma prática antirracista em saúde mental não se resume a campanhas de conscientização ou à inclusão de pessoas negras em materiais institucionais.
Ela precisa aparecer no cotidiano dos serviços.
Isso envolve a forma como profissionais acolhem os usuários, interpretam suas demandas, reconhecem situações de discriminação e constroem estratégias de cuidado. Também envolve a capacidade das instituições de identificar e enfrentar práticas racistas dentro de seus próprios espaços.
O Ministério da Saúde estabelece a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra como uma estratégia para enfrentar desigualdades no SUS e promover atenção integral à população negra. A política reconhece a influência dos determinantes sociais e dos processos socioeconômicos e culturais sobre a situação de saúde dessa população.
No campo da saúde mental, essa perspectiva significa compreender que o cuidado precisa considerar não apenas os sintomas, mas também as condições sociais que atravessam a experiência dos usuários.
O SUS e a importância da equidade

No Brasil, discutir os determinantes sociais da saúde significa também falar sobre o SUS.
A universalidade garante que todas as pessoas tenham direito à saúde. No entanto, garantir um direito formalmente não significa que todas as pessoas tenham as mesmas condições para acessá-lo.
Uma pessoa pode morar ao lado de uma unidade de saúde e ter dificuldade de atendimento por causa de seu horário de trabalho. Outra pode morar longe e depender de transporte público. Outra pode ter vivido experiências de discriminação em serviços anteriores e chegar ao atendimento já desconfiada de que não será acolhida.
Por isso, universalidade e equidade precisam caminhar juntas.
A equidade reconhece que diferentes grupos enfrentam diferentes obstáculos e que reduzir desigualdades exige considerar essas diferenças.
O Ministério da Saúde destaca que os determinantes sociais influenciam as condições de vulnerabilidade da população negra e que a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra tem entre seus objetivos combater desigualdades e promover saúde integral.
Na saúde mental, essa perspectiva deve atravessar a Rede de Atenção Psicossocial e os diferentes pontos de cuidado, desde a atenção primária até os serviços especializados.
Saúde mental também é falar sobre direitos humanos
As desigualdades sociais, o racismo e as diferentes formas de violência impactam diretamente a maneira como as pessoas vivem e cuidam da própria saúde mental. Para compreender esses desafios, é preciso ampliar o olhar para além do indivíduo e discutir direitos, políticas públicas e práticas de cuidado.
Participe do Congresso Internacional do CENAT em Curitiba e aprofunde seus conhecimentos sobre saúde mental, direitos humanos e os desafios contemporâneos do cuidado.
O que os profissionais de saúde mental precisam observar?
Incorporar os determinantes sociais da saúde à prática profissional não significa transformar cada consulta em uma investigação detalhada sobre a vida social do paciente. Significa, antes de tudo, ampliar o olhar.
Questões sobre moradia, trabalho, renda, rede de apoio, território, violência e discriminação podem ser importantes para compreender uma situação de sofrimento. A forma como essas perguntas aparecem no atendimento dependerá do contexto e do vínculo construído com cada pessoa.
Uma pergunta simples sobre como está a vida fora do consultório pode abrir espaço para informações que não apareceriam em uma avaliação concentrada exclusivamente nos sintomas.
Também é importante observar os fatores de proteção.
Quem são as pessoas em quem aquele usuário confia? Existe uma rede comunitária? Há vínculos familiares importantes? A pessoa participa de algum grupo? Possui acesso a atividades que considera significativas? Como é sua relação com o território?
Essas informações ajudam a compreender não apenas o que está produzindo sofrimento, mas também aquilo que pode ajudar no processo de cuidado.
Fatores de risco e fatores de proteção
Quando falamos sobre determinantes sociais da saúde, é comum concentrar a atenção nos fatores que aumentam a vulnerabilidade. Entretanto, uma compreensão mais completa também precisa reconhecer aquilo que protege a saúde mental.
Família, amizades, comunidade, acesso à educação, trabalho protegido, políticas de proteção social, atividades culturais, grupos comunitários e serviços de saúde podem desempenhar papéis importantes.
Uma pessoa que enfrenta uma situação difícil, mas possui uma rede de apoio consistente, pode ter recursos diferentes de alguém que passa pela mesma situação completamente isolado.
Isso não significa que uma boa rede de apoio seja suficiente para neutralizar desigualdades estruturais. Significa apenas que os recursos de proteção também fazem parte da história e precisam ser identificados.
No cuidado em saúde mental, conhecer esses recursos pode ser tão importante quanto identificar os fatores de risco.
Racismo e saúde mental: uma responsabilidade que não é apenas individual

Reconhecer o racismo como determinante social da saúde também modifica a maneira como pensamos a responsabilidade pelo cuidado.
Se uma pessoa está sofrendo em razão de condições sociais injustas, não basta perguntar o que ela poderia fazer individualmente para suportar melhor aquela realidade. Também é necessário considerar quais condições estão contribuindo para o sofrimento e quais mudanças poderiam diminuir essa exposição.
Isso não significa esperar que um psicólogo ou outro profissional resolva sozinho problemas estruturais.
O papel do profissional é outro: reconhecer o contexto, evitar culpabilizar a pessoa, fortalecer sua autonomia, construir estratégias de cuidado e, quando necessário, articular outros recursos da rede.
Essa perspectiva também ajuda a evitar um erro comum: tratar adaptação como sinônimo de saúde.
Uma pessoa pode aprender estratégias para lidar com determinada situação e ainda assim continuar vivendo em uma condição injusta. O fato de conseguir suportar uma realidade difícil não significa que essa realidade tenha deixado de ser prejudicial.
Políticas sociais também podem ser políticas de saúde mental
A discussão sobre determinantes sociais da saúde mostra que promoção da saúde mental não acontece somente dentro dos serviços de saúde.
Moradia adequada, educação de qualidade, trabalho digno, segurança alimentar, proteção social, combate à discriminação e acesso à cultura são políticas que também interferem nas condições necessárias para uma vida saudável.
A OMS reforça que as desigualdades em saúde não serão superadas sem enfrentar fatores como desigualdade econômica e discriminação estrutural. O relatório mundial sobre determinantes sociais da equidade em saúde publicado em 2025 defende justamente ações sobre as condições que produzem e reproduzem essas desigualdades.
Essa perspectiva é particularmente importante quando pensamos em saúde mental porque muitos dos fatores que produzem sofrimento estão fora dos serviços especializados.
Não é possível falar em promoção da saúde mental sem falar também sobre as condições que permitem ou dificultam uma vida com segurança, autonomia e pertencimento.
Por que essa discussão importa para a formação dos profissionais?
Profissionais que trabalham com saúde mental encontram histórias que não cabem completamente em categorias diagnósticas.
Existe uma pessoa por trás do sintoma, mas existe também uma trajetória, uma família, um território, um trabalho, uma rede de relações e uma série de experiências que ajudaram a construir sua maneira de perceber a si mesma e o mundo.
Uma formação comprometida com a realidade precisa preparar o profissional para lidar com essa complexidade.
Isso significa conhecer teorias e técnicas de cuidado, mas também compreender políticas públicas, desigualdades sociais, relações raciais, direitos humanos e os diferentes contextos em que o sofrimento pode aparecer.
Não se trata de transformar todo profissional de saúde mental em especialista em sociologia ou política pública. Trata-se de desenvolver uma capacidade crítica que permita reconhecer quando aquilo que aparece como uma dificuldade individual está relacionado a condições sociais mais amplas.
O território como parte do cuidado
Conhecer o território não significa apenas saber onde o usuário mora.
Significa compreender quais recursos existem naquela região, quais são as dificuldades de acesso, como as pessoas circulam, quais espaços de convivência estão disponíveis e quais situações de violência ou vulnerabilidade podem fazer parte do cotidiano.
Esse conhecimento pode mudar a maneira como um serviço pensa suas estratégias.
Uma intervenção que funciona em um determinado território pode não produzir o mesmo resultado em outro. Um horário de atendimento, por exemplo, pode ser adequado para uma parcela da população e inviável para trabalhadores que passam grande parte do dia em deslocamento.
O cuidado também precisa considerar essas diferenças.
Quando o território entra na análise, a pessoa deixa de ser vista como alguém isolado que precisa apenas “aderir” ao tratamento. Passa a ser compreendida como alguém que precisa construir possibilidades de cuidado dentro de uma realidade concreta.
O combate às desigualdades também é promoção da saúde

A Comissão da OMS sobre Determinantes Sociais da Saúde já havia destacado a necessidade de melhorar as condições de vida cotidiana, enfrentar a distribuição desigual de poder, dinheiro e recursos e ampliar o conhecimento sobre as desigualdades em saúde. As recomendações continuam presentes na agenda internacional de equidade em saúde.
Isso ajuda a entender por que a promoção da saúde não pode ser separada das políticas sociais.
Se a população não tem acesso adequado à moradia, à educação, à alimentação, ao trabalho e à proteção social, o sistema de saúde passa a lidar continuamente com consequências de problemas que começaram muito antes de a pessoa chegar a uma unidade de atendimento.
No campo da saúde mental, essa percepção é ainda mais relevante. O sofrimento psíquico frequentemente se relaciona a experiências prolongadas de insegurança, violência, isolamento, discriminação e perda de perspectivas.
Cuidar é necessário. Mas transformar as condições que produzem sofrimento também é.
Não existe cuidado integral sem olhar para a desigualdade

A ideia de cuidado integral perde parte de seu sentido quando a realidade social da pessoa é ignorada.
Não basta saber quais sintomas estão presentes. É preciso compreender o que estava acontecendo na vida daquele indivíduo quando eles surgiram, quais condições permanecem presentes e quais recursos estão disponíveis para ajudá-lo.
Isso não significa procurar uma explicação social para tudo. Significa reconhecer que a dimensão social é uma das partes da história.
Uma pessoa pode ter uma condição de saúde mental que exige tratamento clínico e, ao mesmo tempo, viver em uma situação de violência, precarização do trabalho ou discriminação que agrava seu sofrimento. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
Considerações finais
Compreender os determinantes sociais da saúde é reconhecer que o processo de adoecimento não acontece separado das condições de vida. Renda, trabalho, moradia, educação, território, acesso aos serviços, relações sociais e experiências de discriminação podem influenciar tanto as possibilidades de cuidado quanto a maneira como o sofrimento se manifesta.
Quando racismo e desigualdade atravessam essas condições, seus efeitos também precisam ser considerados no campo da saúde mental. Isso não significa afirmar que o racismo seja a única causa de determinado sofrimento ou que todas as pessoas submetidas a desigualdades irão desenvolver um transtorno mental. A realidade é mais complexa do que isso.
O que precisamos reconhecer é que viver repetidamente em condições de discriminação, insegurança, violência ou falta de acesso a recursos pode aumentar a exposição a situações que prejudicam a saúde e dificultar o acesso aos fatores que poderiam protegê-la. A literatura internacional e as políticas brasileiras de equidade em saúde apontam justamente para essa relação entre condições sociais e desigualdades nos resultados de saúde.
Para os profissionais de saúde mental, essa compreensão pode produzir uma mudança importante na maneira de escutar. Em vez de olhar apenas para o sintoma, torna-se possível perguntar também sobre a trajetória da pessoa, suas relações, seu trabalho, seu território, suas condições materiais e as experiências que marcaram sua vida.
O objetivo não é substituir o cuidado clínico por uma análise social. É integrar essas dimensões para que o cuidado faça sentido diante da realidade de quem está sendo atendido.
A saúde mental não é construída apenas dentro dos consultórios. Ela também é influenciada pelas condições em que as pessoas vivem, pelas oportunidades que encontram, pelos vínculos que conseguem estabelecer e pela segurança e pelo pertencimento que experimentam no cotidiano.
Por isso, discutir racismo e desigualdade como determinantes sociais da saúde não significa levar a saúde mental para um campo que não lhe pertence. Significa reconhecer que cuidar da saúde mental exige compreender a pessoa em sua complexidade — e essa complexidade inclui necessariamente o mundo social do qual ela faz parte.
Perguntas frequentes sobre determinantes sociais da saúde e saúde mental
O que são determinantes sociais da saúde?
Os determinantes sociais da saúde são as condições sociais, econômicas, ambientais e políticas que influenciam a saúde das pessoas. Entre elas estão renda, educação, trabalho, moradia, alimentação, proteção social, território e acesso a serviços e recursos. A OMS considera esses fatores fundamentais para compreender as desigualdades em saúde.
O racismo é um determinante social da saúde?
Sim. O Ministério da Saúde reconhece o racismo, as desigualdades étnico-raciais e o racismo estrutural como determinantes sociais relacionados às condições de saúde da população negra.
Como o racismo pode afetar a saúde mental?
O racismo pode influenciar a saúde mental por meio de experiências repetidas de discriminação, violência, exclusão, insegurança e desigualdade no acesso a oportunidades e serviços. Esses fatores podem aumentar a exposição a situações de sofrimento, embora não determinem automaticamente que uma pessoa desenvolverá um transtorno mental.
Como a desigualdade social influencia o adoecimento psíquico?
A desigualdade social pode aumentar a exposição a fatores como insegurança financeira, precarização do trabalho, moradia inadequada, violência e dificuldade de acesso a serviços. A OMS destaca que fatores de risco para muitos problemas de saúde mental estão associados às desigualdades sociais.
A pobreza causa transtornos mentais?
Não existe uma relação automática entre pobreza e transtorno mental. A condição socioeconômica, porém, pode influenciar a exposição a diferentes fatores de risco e os recursos disponíveis para enfrentá-los. Por isso, a situação econômica deve ser considerada dentro de uma análise mais ampla da história e das condições de vida da pessoa.
O tratamento psicológico é suficiente para enfrentar o sofrimento produzido pela desigualdade?
O cuidado psicológico pode ser fundamental, mas nem sempre consegue modificar as condições sociais que participam do sofrimento. Dependendo da situação, o cuidado pode precisar ser articulado com assistência social, serviços de saúde, políticas públicas, rede comunitária e outras estratégias de proteção.
Por que profissionais de saúde mental precisam conhecer os determinantes sociais da saúde?
Porque o contexto social influencia a maneira como o sofrimento aparece, é vivido e pode ser enfrentado. Conhecer esses determinantes ajuda a evitar explicações excessivamente individualizadas e permite identificar tanto fatores de risco quanto recursos de proteção presentes na vida da pessoa.
Referências:
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BRASIL. Ministério da Saúde. Racismo como determinante social de saúde. Brasília, DF: Ministério da Saúde, [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-sem-racismo/publicacoes/racismo-como-determinante-social-de-saude.pdf/view?.
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