O cuidado do TDAH em crianças pela perspectiva psicossocial

Nos últimos anos, o debate sobre o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em crianças tem ganhado cada vez mais espaço entre profissionais da saúde, educadores e famílias. Em consultórios, escolas e até mesmo nas redes sociais, a sigla TDAH aparece frequentemente associada a comportamentos como desatenção, impulsividade e inquietação.
Estudos epidemiológicos indicam que o TDAH está entre os transtornos mais comuns na infância. Uma revisão internacional conduzida por Polanczyk et al. (2007) estimou que a prevalência mundial do transtorno gira em torno de 5% a 7% das crianças em idade escolar. Esses dados ajudam a compreender por que o tema tem se tornado cada vez mais presente nas discussões sobre saúde mental infantil.
Para muitas famílias, o primeiro contato com esse tema surge a partir de uma observação feita na escola. Professoras e professores relatam que a criança tem dificuldade em manter a concentração, levanta da cadeira com frequência ou parece se distrair facilmente durante atividades em sala de aula. Em alguns casos, esses comportamentos começam a impactar o rendimento escolar e as relações com colegas.
Mas o que exatamente significa falar de TDAH em crianças? E, mais importante ainda: como pensar o cuidado sem reduzir a infância a um conjunto de sintomas?
Embora o transtorno seja amplamente estudado na psiquiatria e na psicologia, diversos pesquisadores têm defendido a importância de ampliar o olhar sobre essa questão. Isso significa considerar não apenas os aspectos biológicos envolvidos, mas também os contextos sociais, familiares e escolares que atravessam a experiência da criança (CONRAD, 2007; COLLARES; MOYSÉS, 2010).
Nesse sentido, a perspectiva psicossocial propõe uma mudança importante na forma de compreender o TDAH. Em vez de focar exclusivamente no diagnóstico ou no controle dos sintomas, essa abordagem busca compreender a criança em sua singularidade: sua história, seus vínculos, suas experiências e os ambientes nos quais ela vive e se desenvolve.
Mais do que perguntar apenas “qual é o problema?”, essa perspectiva convida a refletir: o que essa criança está tentando comunicar por meio de seu comportamento?
O que é o TDAH em crianças e como ele se manifesta

O TDAH em crianças é descrito na literatura científica como um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade que interferem no funcionamento social, acadêmico ou familiar (BARKLEY, 2015).
Segundo Barkley (2015), alguns dos comportamentos frequentemente associados ao TDAH incluem:
- dificuldade em manter a atenção em tarefas prolongadas
- esquecimento frequente de atividades ou compromissos
- agitação motora constante
- dificuldade em esperar a vez em interações sociais
- interrupção de conversas ou atividades
- dificuldade em organizar tarefas
Esses comportamentos podem aparecer em diferentes contextos da vida da criança, especialmente na escola e no ambiente familiar.
Entretanto, é importante lembrar que a infância é uma fase marcada por curiosidade, movimento e experimentação. Crianças exploram o mundo com o corpo, fazem perguntas o tempo todo e nem sempre conseguem permanecer concentradas por longos períodos.
Por isso, especialistas ressaltam que o diagnóstico deve ser realizado com cautela, por profissionais qualificados e considerando diferentes aspectos do desenvolvimento infantil (JEROME, 2020).
Por que o diagnóstico de TDAH em crianças tem aumentado?
Nas últimas décadas, o número de diagnósticos de TDAH em crianças aumentou significativamente em diversos países. Segundo Thapar e Cooper (2016), esse crescimento pode estar relacionado tanto a avanços nos critérios diagnósticos quanto a mudanças sociais e educacionais que influenciam a forma como o comportamento infantil é interpretado.
Em muitos contextos escolares contemporâneos, as crianças passam longos períodos em ambientes que exigem concentração contínua, organização de tarefas e desempenho acadêmico precoce.
Nesse cenário, comportamentos naturais da infância — como movimento constante, curiosidade ou dificuldade de permanecer sentado por muito tempo — podem ser interpretados como sinais de dificuldade ou transtorno.
Essa discussão tem levado pesquisadores a refletirem sobre o fenômeno da medicalização da infância.
A medicalização da infância
O conceito de medicalização foi amplamente discutido pelo sociólogo Peter Conrad (2007), que descreve esse processo como a transformação de experiências humanas e sociais em problemas médicos passíveis de diagnóstico e tratamento.
No caso do TDAH em crianças, esse debate aparece quando comportamentos complexos são explicados exclusivamente por fatores biológicos e tratados prioritariamente com medicação.
Isso não significa negar a existência do transtorno ou a importância de intervenções médicas quando necessárias. Em muitos casos, o tratamento medicamentoso pode trazer benefícios importantes.
No entanto, diversos especialistas alertam que o cuidado não pode se limitar apenas à medicação. Quando o foco se restringe exclusivamente a essa dimensão, existe o risco de deixar de lado fatores igualmente importantes, como:
- dificuldades pedagógicas
- contextos familiares desafiadores
- experiências de sofrimento emocional
- ambientes escolares pouco inclusivos
A perspectiva psicossocial busca justamente ampliar esse olhar, reconhecendo que o desenvolvimento infantil ocorre em interação constante com o ambiente social.
A escuta da criança como ponto de partida

Um dos princípios centrais da abordagem psicossocial é a escuta ativa da criança.
Em vez de enxergá-la apenas como portadora de um diagnóstico, essa perspectiva reconhece a criança como sujeito de experiência, capaz de expressar sentimentos, desejos e dificuldades.
Quando uma criança apresenta comportamentos associados ao TDAH, é importante considerar diferentes aspectos de sua vida:
- como ela se sente na escola
- como são suas relações com colegas e professores
- o que ela pensa sobre suas próprias dificuldades
- quais situações geram mais frustração ou ansiedade
Também é importante observar as interseccionalidades que atravessam a vida dessa criança. Questões relacionadas a raça, gênero, contexto socioeconômico, religião ou cultura podem influenciar tanto a forma como o comportamento é interpretado quanto o acesso a oportunidades educacionais e de cuidado.
A escola como espaço de cuidado

A escola costuma ser o primeiro espaço onde surgem preocupações relacionadas ao TDAH em crianças.
No entanto, é importante que a escola não seja apenas um espaço de encaminhamento para diagnóstico, mas também um espaço de acolhimento e inclusão.
Algumas estratégias pedagógicas podem contribuir para isso:
- diversificação das metodologias de ensino
- atividades mais participativas
- organização de rotinas estruturadas
- pausas entre tarefas prolongadas
- valorização de diferentes estilos de aprendizagem
Essas práticas ajudam a criar ambientes educativos mais inclusivos e sensíveis às diferentes necessidades das crianças.
O cuidado em rede

Pensar o cuidado com o TDAH em crianças a partir de uma perspectiva psicossocial significa reconhecer que nenhuma instituição consegue responder sozinha às necessidades da criança.
O cuidado se torna mais eficaz quando ocorre em rede interdisciplinar, envolvendo profissionais como psicólogos, psiquiatras infantis, terapeutas ocupacionais, pedagogos e assistentes sociais.
No Brasil, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) organiza os serviços de saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenis (CAPSi), que oferecem acompanhamento especializado para crianças e adolescentes em sofrimento psíquico (BRASIL, 2011).
Clique aqui e leia nosso post sobre o CAPS Infantojuvenil
Estratégias psicossociais no acompanhamento do TDAH
Diversas estratégias podem contribuir para o cuidado de crianças com dificuldades relacionadas à atenção e à impulsividade.
Entre elas destacam-se:
Acompanhamento psicológico
A psicoterapia pode ajudar a criança a compreender emoções, lidar com frustrações e desenvolver habilidades sociais.
Orientação familiar
Famílias também podem precisar de apoio para compreender o comportamento da criança e desenvolver estratégias de cuidado no cotidiano.
Estratégias pedagógicas
Adaptações no ambiente escolar podem facilitar o processo de aprendizagem.
Atividades expressivas e corporais
Arte, música e atividades corporais podem favorecer a expressão emocional e o desenvolvimento da atenção.
A importância da formação profissional em saúde mental infantojuvenil

A complexidade do cuidado em saúde mental infantojuvenil exige que profissionais da saúde e da educação tenham formação adequada para lidar com esses desafios.
Nos últimos anos, tem crescido a demanda por formações que integrem conhecimentos sobre:
- desenvolvimento infantil
- políticas públicas de saúde mental
- práticas psicossociais de cuidado
- trabalho interdisciplinar
Esse tipo de formação permite que profissionais atuem de forma mais sensível às necessidades das crianças e de suas famílias.
Instituições dedicadas à educação continuada em saúde mental têm desempenhado um papel importante nesse processo, contribuindo para a qualificação de práticas clínicas e institucionais alinhadas aos princípios do cuidado em liberdade e dos direitos humanos.
Para além do diagnóstico
Pensar o TDAH em crianças pela perspectiva psicossocial implica reconhecer que nenhum diagnóstico é capaz de definir completamente uma criança.
Cada criança possui uma história única, marcada por experiências, relações e formas próprias de aprender, se expressar e se relacionar com o mundo.
Mais do que tentar encaixar a criança em padrões de comportamento esperados, o desafio passa a ser construir ambientes que acolham diferentes formas de desenvolvimento e expressão da infância.
FAQ – Perguntas frequentes sobre TDAH em crianças
O que é TDAH em crianças?
O TDAH em crianças é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades persistentes relacionadas à atenção, hiperatividade e impulsividade, que podem impactar o desempenho escolar e as relações sociais (Barkley, 2015).
Toda criança agitada tem TDAH?
Não. A infância é naturalmente marcada por movimento e curiosidade. O diagnóstico deve considerar diversos fatores do desenvolvimento infantil e ser realizado por profissionais qualificados.
O TDAH em crianças tem tratamento?
Sim. O tratamento pode incluir acompanhamento psicológico, orientação familiar, adaptações pedagógicas e, em alguns casos, tratamento medicamentoso.
A escola pode ajudar no cuidado do TDAH?
Sim. Estratégias pedagógicas inclusivas e ambientes educativos mais flexíveis podem contribuir significativamente para o desenvolvimento da criança.
Referências
BARKLEY, R. A. Attention-Deficit Hyperactivity Disorder: A Handbook for Diagnosis and Treatment. New York: Guilford Press, 2015.
BRASIL. Ministério da Saúde. Rede de Atenção Psicossocial – RAPS. Brasília, 2011.
COLLARES, C.; MOYSÉS, M. A medicalização da educação e da sociedade. Campinas: Mercado de Letras, 2010.
CONRAD, P. The Medicalization of Society. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2007.
JEROME, D. Approach to diagnosis and management of childhood attention deficit hyperactivity disorder.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7571664/
POLANCZYK, G. et al. The worldwide prevalence of ADHD. American Journal of Psychiatry, 2007.
THAPAR, A.; COOPER, M. Attention deficit hyperactivity disorder. The Lancet, 2016.
NIMH – National Institute of Mental Health.
https://www.nimh.nih.gov/health/topics/attention-deficit-hyperactivity-disorder-adhd
