Psicologia Decolonial: Por que precisamos repensar as bases do cuidado em saúde mental no Brasil?

Falar sobre Psicologia decolonial é abrir espaço para uma pergunta que nem sempre recebe a atenção necessária na formação e na prática profissional: de onde vêm as teorias que utilizamos para compreender o sofrimento psíquico e até que ponto elas consideram a realidade das pessoas que atendemos?
No Brasil, essa discussão não pode ser separada da história da colonização, da escravidão, do racismo e das desigualdades sociais que continuam influenciando as condições de vida da população. A maneira como uma pessoa expressa o sofrimento, constrói seus vínculos, compreende a própria existência e busca ajuda está relacionada não apenas à sua experiência individual, mas também ao contexto histórico, cultural, econômico e político em que vive.
Isso não significa negar a importância das teorias psicológicas consolidadas ou desconsiderar as evidências científicas produzidas em diferentes países. O desafio é reconhecer que nenhum conhecimento existe fora de um contexto e que modelos construídos a partir de determinadas experiências sociais não devem ser tratados como explicações universais para todas as pessoas.
A psicologia decolonial propõe justamente esse deslocamento: questionar hierarquias de conhecimento, tornar visíveis experiências historicamente marginalizadas e construir práticas de cuidado mais comprometidas com a diversidade e com a realidade latino-americana.
O que é Psicologia Decolonial?

A psicologia decolonial é uma perspectiva crítica que questiona a permanência das hierarquias coloniais na produção do conhecimento psicológico e nas práticas de cuidado. Ela investiga como o colonialismo, o racismo, o eurocentrismo e outras relações de poder influenciam aquilo que é reconhecido como conhecimento legítimo, comportamento considerado normal e sofrimento compreendido como problema individual.
A proposta não é criar uma única teoria capaz de substituir todas as demais. Trata-se de ampliar o campo de reflexão da Psicologia, examinando seus pressupostos e reconhecendo que diferentes povos e grupos sociais produzem conhecimentos relevantes sobre a vida, as relações humanas e o cuidado.
O pensamento decolonial latino-americano dialoga com autores como Aníbal Quijano, que desenvolveu o conceito de colonialidade do poder, e com outras produções críticas sobre as relações entre conhecimento, história e desigualdade. Essa abordagem ajuda a compreender por que o fim formal do colonialismo não eliminou as hierarquias raciais, culturais e epistemológicas construídas ao longo desse processo.
Na Psicologia, essa discussão alcança tanto a formação acadêmica quanto a pesquisa, a avaliação psicológica, o atendimento clínico e as políticas públicas de saúde mental.
Em uma revisão sobre a produção latino-americana que articula Psicologia e pensamento decolonial, Dimenstein e colaboradores identificaram críticas à centralidade de modelos teóricos provenientes dos países capitalistas centrais e à invisibilização de produções nacionais e latino-americanas. O estudo também chama atenção para a necessidade de investigar o racismo epistêmico, isto é, os mecanismos que desvalorizam determinados conhecimentos em razão de sua origem e de seus produtores. (Dimenstein et al., 2022).
Colonialidade: por que o fim da colonização não encerrou o problema?

Para compreender a psicologia decolonial, é importante distinguir colonialismo de colonialidade.
O colonialismo diz respeito, de maneira geral, à dominação política e territorial exercida por uma sociedade sobre outra. A colonialidade, por sua vez, descreve a permanência de padrões de poder e hierarquias que continuam organizando as relações sociais mesmo depois do encerramento formal do domínio colonial.
Essas permanências podem aparecer na distribuição desigual de recursos, na valorização de determinados grupos em detrimento de outros e na ideia de que os conhecimentos europeus ou norte-americanos são necessariamente mais universais, científicos ou sofisticados do que aqueles produzidos em outros contextos.
No campo da saúde mental, isso merece atenção porque as teorias e as práticas profissionais participam da construção de categorias utilizadas para interpretar o comportamento humano. Se essas categorias são aplicadas sem considerar o contexto, existe o risco de transformar diferenças culturais em sinais de inadequação ou de interpretar respostas à violência e à exclusão como problemas exclusivamente individuais.
A colonialidade também pode aparecer de maneira menos explícita. Ela está presente quando a experiência de uma comunidade é considerada secundária diante de um modelo teórico importado, quando saberes tradicionais são desqualificados antes mesmo de serem compreendidos ou quando a realidade social de uma pessoa é tratada como informação periférica durante o atendimento.
Questionar essas estruturas não significa rejeitar todo conhecimento produzido fora do Brasil. Significa avaliar criticamente seus limites, suas condições de produção e sua pertinência para cada situação.
Como o eurocentrismo influenciou a construção da Psicologia?
A Psicologia se desenvolveu por meio de diferentes escolas teóricas, métodos de pesquisa e práticas profissionais. Uma parte importante de sua institucionalização ocorreu na Europa e nos Estados Unidos, regiões que exerceram grande influência sobre a formação acadêmica brasileira.
Essa trajetória contribuiu para avanços relevantes, mas também produziu uma hierarquia na qual determinadas experiências humanas passaram a ocupar o lugar de referência, enquanto outras eram tratadas como variações, exceções ou objetos de estudo.
O problema não está em estudar autores europeus ou norte-americanos. A questão é quando essas referências são ensinadas como suficientes para compreender a complexidade de uma sociedade marcada pela escravidão, pela desigualdade racial, pela diversidade indígena, pelas diferenças regionais e por múltiplas formas de organização comunitária.
Uma teoria pode oferecer contribuições importantes e, ainda assim, precisar de contextualização. Um instrumento psicológico pode ter evidências de validade em determinada população e exigir avaliação cuidadosa antes de ser utilizado em outro contexto cultural. Uma interpretação clínica pode fazer sentido para uma experiência e não explicar adequadamente outra.
A psicologia decolonial convida profissionais e pesquisadores a examinar essas condições, em vez de assumir que os conceitos disponíveis são neutros ou universalmente aplicáveis.
Colonialidade do saber e produção científica
A colonialidade do saber aparece quando determinadas formas de conhecimento são consideradas legítimas por sua origem institucional, enquanto outras são desvalorizadas por estarem vinculadas a grupos historicamente marginalizados.
Na prática, isso pode se refletir em currículos com pouca presença de autores negros, indígenas e latino-americanos, em pesquisas que não reconhecem os saberes das comunidades estudadas ou em intervenções que tratam a população como destinatária passiva de um conhecimento produzido externamente.
Uma formação crítica precisa ampliar o repertório teórico sem abrir mão do rigor metodológico. Isso envolve estudar diferentes tradições intelectuais, analisar as condições em que uma pesquisa foi realizada e reconhecer os limites de sua aplicação.
Também exige perguntar quem participa da produção do conhecimento, quais experiências são investigadas e quais vozes permanecem ausentes das decisões sobre cuidado.
Psicologia decolonial e saúde mental no Brasil: uma relação necessária

No Brasil, pensar o cuidado em saúde mental exige reconhecer que as experiências de sofrimento são atravessadas por desigualdades históricas. Racismo, pobreza, violência, discriminação de gênero, LGBTfobia, capacitismo e insegurança habitacional podem afetar a saúde, o acesso aos serviços e a possibilidade de construir uma vida com dignidade.
Esses fatores não determinam de maneira automática a experiência de cada pessoa, mas interferem nas oportunidades, nos vínculos, na exposição à violência e nos recursos disponíveis para enfrentar situações difíceis.
Uma abordagem decolonial ajuda a evitar que problemas produzidos ou agravados socialmente sejam explicados apenas como fragilidades individuais. A escuta clínica continua sendo fundamental, mas precisa estar conectada às condições concretas em que a pessoa vive.
Imagine, por exemplo, alguém que apresenta ansiedade persistente em um ambiente de trabalho marcado por humilhações racistas. Uma avaliação cuidadosa não deve ignorar os sintomas, mas também não pode desconsiderar a violência que contribui para o sofrimento. Tratar apenas a resposta emocional, sem reconhecer o contexto, pode limitar a compreensão do problema e as possibilidades de intervenção.
A mesma atenção é necessária quando se atende uma pessoa indígena, uma mulher negra, uma pessoa LGBTQIA+, alguém em situação de rua ou um usuário de serviços de saúde mental que enfrenta barreiras econômicas e institucionais. Não existe uma experiência única que represente todos esses grupos, e a identidade de uma pessoa não deve ser utilizada como explicação pronta para sua história.
A proposta é construir um cuidado capaz de reconhecer as singularidades sem perder de vista as relações de poder que atravessam a sociedade.
Racismo estrutural e sofrimento psíquico: o que a Psicologia precisa reconhecer?

O racismo não se manifesta somente em agressões explícitas. Ele também pode estar presente em práticas institucionais, desigualdades de acesso, estereótipos e formas de tratamento que deslegitimam experiências de determinados grupos.
Na saúde mental, essas situações podem afetar a confiança nos serviços, a qualidade do acolhimento e a maneira como as queixas são interpretadas. Quando relatos de discriminação são minimizados ou quando características culturais são tomadas como sinais de inadequação, o próprio atendimento pode produzir afastamento e sofrimento.
Reconhecer esse problema é parte de uma prática profissional responsável. A Resolução CFP nº 18/2002 estabelece normas de atuação para psicólogas e psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial, reafirmando a responsabilidade ética da profissão no enfrentamento ao racismo (Conselho Federal de Psicologia).
Além disso, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra reconhece a necessidade de enfrentar o racismo e as desigualdades raciais no âmbito do SUS. A política oferece uma referência importante para compreender que equidade em saúde não se resume à existência formal de serviços: envolve também condições reais de acesso, acolhimento e qualidade da atenção (Ministério da Saúde).
Uma Psicologia comprometida com a decolonialidade precisa transformar esse reconhecimento em prática. Isso envolve identificar preconceitos, rever protocolos, qualificar a escuta e não responsabilizar individualmente quem enfrenta barreiras sociais e institucionais.
Saúde mental também é uma questão de direitos humanos
Compreender o sofrimento psíquico exige olhar para além do indivíduo e reconhecer como o racismo, as desigualdades sociais e as violações de direitos atravessam a vida das pessoas.
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O que muda na prática clínica a partir de uma perspectiva decolonial?

A psicologia decolonial não determina uma técnica clínica única. Sua contribuição está em ampliar as perguntas feitas durante a avaliação, a formulação do caso e o planejamento do cuidado.
Em vez de aplicar categorias de forma automática, o profissional é convidado a investigar como a história, o território, a cultura, os vínculos e as relações de poder participam da experiência apresentada pela pessoa atendida.
Essa postura pode se traduzir em algumas mudanças concretas.
1. Contextualizar o sofrimento sem reduzir a pessoa ao contexto
Compreender os determinantes sociais do sofrimento não significa ignorar a singularidade de cada sujeito. Duas pessoas submetidas a situações semelhantes podem desenvolver respostas diferentes, e cada uma constrói sentidos próprios para suas experiências.
A perspectiva decolonial propõe considerar simultaneamente a história individual e as condições sociais, evitando tanto a individualização excessiva quanto explicações que reduzam a pessoa à sua identidade ou posição social.
2. Reconhecer os limites das ferramentas utilizadas
Questionários, escalas, entrevistas e instrumentos de avaliação podem ser importantes recursos profissionais. Entretanto, é necessário observar para quais populações foram desenvolvidos, quais evidências sustentam sua utilização e se existem limitações culturais ou linguísticas relevantes.
O uso responsável dessas ferramentas exige formação técnica, atenção às normas profissionais e análise crítica dos resultados. Nenhum instrumento deve substituir o julgamento profissional fundamentado ou a escuta da pessoa atendida.
3. Construir uma escuta que não reproduza estereótipos
Uma escuta qualificada precisa acolher o relato sem pressupor que determinada raça, gênero, religião, origem territorial ou condição socioeconômica explique antecipadamente o comportamento de alguém.
Isso também significa reconhecer quando o profissional não conhece suficientemente uma experiência e precisa estudar, dialogar ou buscar supervisão. A postura ética não depende de saber tudo, mas de reconhecer limites e evitar que eles sejam transferidos para a pessoa atendida.
4. Considerar redes de apoio e recursos comunitários
O cuidado em saúde mental não acontece exclusivamente no consultório. Família, amizades, coletivos, serviços públicos, organizações comunitárias e redes territoriais podem desempenhar papéis relevantes na vida das pessoas.
Essas redes não devem ser romantizadas, pois também podem reproduzir conflitos e violências. Ainda assim, reconhecê-las ajuda a ampliar as possibilidades de cuidado e a evitar que a intervenção fique restrita à relação individual entre profissional e paciente.
5. Rever relações de poder no atendimento
A relação terapêutica envolve diferenças de formação, autoridade institucional e acesso ao conhecimento técnico. Uma prática reflexiva reconhece essas diferenças e procura construir um espaço em que a pessoa possa participar das decisões, expressar discordâncias e compreender as possibilidades e os limites do acompanhamento.
A autonomia não elimina a responsabilidade técnica do profissional. Ela exige que as decisões sejam justificadas, dialogadas e orientadas pelos direitos da pessoa atendida.
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Uma escuta qualificada exige conhecimento técnico, reflexão crítica e atenção à história e ao contexto de vida de cada pessoa. Na prática clínica, esses elementos contribuem para uma atuação mais consciente das singularidades e das necessidades de quem busca atendimento.
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Decolonialidade, Reforma Psiquiátrica e cuidado em liberdade
A discussão decolonial também dialoga com a Reforma Psiquiátrica brasileira, especialmente com a crítica a modelos de assistência baseados no isolamento, na tutela e na perda de autonomia.
A Lei nº 10.216/2001 estabeleceu a proteção dos direitos das pessoas com transtornos mentais e redirecionou o modelo assistencial em saúde mental, determinando que esses direitos sejam assegurados sem discriminação, inclusive por raça, cor, condição econômica e outras características (Lei nº 10.216/2001).
A construção de uma atenção psicossocial orientada pelos direitos humanos exige reconhecer a pessoa para além do diagnóstico e considerar sua participação na vida comunitária. A perspectiva decolonial acrescenta uma pergunta importante: quais grupos foram historicamente considerados incapazes de decidir sobre a própria vida e quais práticas institucionais ainda reproduzem essa desqualificação?
Essa reflexão não significa afirmar que toda prática psiquiátrica ou todo serviço de saúde mental reproduz a lógica colonial. Significa investigar criticamente os modos de cuidado, identificar situações de violência ou silenciamento e fortalecer estratégias que respeitem autonomia, dignidade e participação social.
Na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), essa discussão pode contribuir para práticas territoriais, articulação entre serviços, valorização da convivência comunitária e construção de projetos terapêuticos que considerem as necessidades concretas de cada pessoa.
Entenda o papel da Psicologia na RAPS
Saberes tradicionais, cultura e pluralidade de formas de cuidado

A perspectiva decolonial também questiona a ideia de que existe apenas uma maneira legítima de compreender o sofrimento e construir respostas para ele.
Em diferentes comunidades, as experiências de cuidado podem envolver espiritualidade, práticas coletivas, conhecimentos transmitidos entre gerações e relações específicas com o território. Esses elementos podem ser centrais para a forma como uma pessoa interpreta o que está vivendo e procura apoio.
Reconhecer essa pluralidade não significa considerar todas as práticas equivalentes em qualquer situação, nem abandonar critérios de segurança, evidência científica e responsabilidade profissional. Significa evitar a desqualificação automática de saberes por sua origem cultural e construir diálogos que respeitem os direitos das pessoas.
No atendimento a povos indígenas, por exemplo, é importante não tratar comunidades distintas como se compartilhassem uma única visão de mundo. A diversidade entre povos, línguas, territórios e tradições exige abordagens situadas e diálogo com as próprias comunidades.
O mesmo princípio vale para outras experiências culturais e religiosas. O profissional precisa compreender o significado que determinada prática possui para a pessoa, avaliar possíveis riscos quando necessário e evitar impor interpretações sem escuta.
A construção de um cuidado plural depende tanto do respeito à diversidade quanto da capacidade de sustentar decisões éticas e tecnicamente fundamentadas.
Os desafios para incorporar a Psicologia Decolonial à formação profissional
Embora o debate sobre decolonialidade esteja presente em parte da produção acadêmica brasileira, sua incorporação à formação e aos serviços ainda enfrenta desafios.
Um deles é a organização dos currículos. Quando autores negros, indígenas e latino-americanos aparecem de forma pontual, sem participação efetiva nas discussões centrais, a formação pode continuar reproduzindo a ideia de que determinadas tradições são universais e outras são complementares.
Outro desafio é transformar o debate teórico em mudanças institucionais. Incluir conteúdos sobre racismo e colonialidade é importante, mas não basta se os serviços continuam sem protocolos adequados, espaços de supervisão, formação permanente e mecanismos para enfrentar discriminação.
Também é necessário evitar que a decolonialidade se torne apenas uma expressão presente em documentos e campanhas. Uma instituição pode adotar esse vocabulário sem revisar suas práticas de contratação, seus critérios de pesquisa, sua relação com as comunidades ou a forma como acolhe denúncias de discriminação.
A transformação exige continuidade, avaliação crítica e participação das pessoas diretamente afetadas pelas desigualdades.
Para profissionais da Psicologia, isso significa assumir uma postura de aprendizagem permanente: estudar produções diversas, revisar decisões, reconhecer limites e avaliar os efeitos concretos do próprio trabalho.
Como construir uma prática psicológica mais decolonial?
Não existe uma lista de procedimentos capaz de garantir, sozinha, uma prática decolonial. A mudança depende de um compromisso contínuo com a reflexão crítica e com a revisão das relações de poder presentes no cuidado.
Algumas ações podem contribuir para esse processo:
- Ampliar as referências teóricas: incluir autores negros, indígenas, latino-americanos e outras produções historicamente marginalizadas, sem abandonar o rigor científico.
- Investigar o contexto de vida: considerar território, condições materiais, vínculos, experiências de discriminação e redes de apoio durante a avaliação e o acompanhamento.
- Revisar pressupostos profissionais: questionar interpretações que possam estar baseadas em estereótipos culturais, raciais ou de classe.
- Valorizar a participação da pessoa atendida: construir objetivos terapêuticos em diálogo, respeitando autonomia, direitos e singularidades.
- Investir em formação permanente: buscar supervisão, estudos, debates interdisciplinares e espaços de reflexão sobre relações raciais e desigualdades.
- Observar as práticas institucionais: identificar barreiras de acesso, formas de discriminação e procedimentos que possam comprometer a qualidade do cuidado.
- Dialogar com outros saberes: reconhecer recursos comunitários e culturais sem idealizá-los ou substituir a avaliação técnica quando ela é necessária.
Essas ações não representam um protocolo fechado. São pontos de partida para que profissionais e instituições avaliem se suas práticas ampliam o acesso, respeitam as diferenças e contribuem para reduzir desigualdades.
Por que a Psicologia Decolonial importa para o futuro da saúde mental?

Repensar as bases do cuidado em saúde mental não significa abandonar a Psicologia, mas aprofundar sua responsabilidade diante da sociedade em que atua. Uma prática profissional comprometida com a dignidade humana precisa examinar não apenas a eficácia das intervenções, mas também os pressupostos que orientam suas decisões e os efeitos que elas produzem.
A psicologia decolonial contribui para esse movimento ao questionar a naturalização de hierarquias históricas e defender uma produção de conhecimento mais plural, contextualizada e aberta ao diálogo. Sua importância está menos em oferecer respostas prontas e mais em ampliar a capacidade de fazer perguntas relevantes.
Quem é reconhecido como sujeito de conhecimento? Quais experiências são consideradas legítimas? Que condições sociais participam do sofrimento apresentado? O serviço acolhe as diferenças ou exige que todas as pessoas se adaptem a um único modelo de cuidado?
Essas perguntas interessam à clínica, à pesquisa, à formação universitária e às políticas públicas. Também ajudam a aproximar a atuação profissional dos princípios de equidade, integralidade e respeito aos direitos humanos que orientam o SUS.
No contexto brasileiro, essa reflexão é especialmente necessária porque as desigualdades históricas não permanecem fora dos serviços de saúde. Elas podem influenciar quem consegue acessar o cuidado, como uma queixa é interpretada e quais possibilidades de acompanhamento são oferecidas.
Construir uma Psicologia mais atenta a essas questões exige formação sólida, responsabilidade ética e disposição para rever práticas consolidadas. É um trabalho coletivo, que não se encerra com a adoção de um novo conceito, mas se desenvolve na maneira como profissionais, instituições e comunidades constroem relações de cuidado.
Para quem atua ou deseja atuar na saúde mental, fica uma questão importante: como transformar o reconhecimento das desigualdades históricas em mudanças concretas na escuta, na formação e nas práticas de cuidado?
Perguntas frequentes sobre Psicologia Decolonial
O que é Psicologia Decolonial?
A psicologia decolonial é uma perspectiva crítica que questiona a influência da colonialidade, do eurocentrismo e das relações de poder na produção do conhecimento psicológico e nas práticas de cuidado. Ela busca ampliar as referências teóricas e considerar os contextos históricos, sociais e culturais das pessoas.
Qual é a diferença entre Psicologia Decolonial e Psicologia Antirracista?
As duas perspectivas podem se complementar, mas não são sinônimas. A Psicologia Antirracista enfatiza o enfrentamento ao racismo e à discriminação racial. A psicologia decolonial também investiga hierarquias de conhecimento, padrões culturais dominantes e outras permanências das relações coloniais. Ambas podem contribuir para práticas mais equitativas.
A Psicologia Decolonial rejeita as teorias europeias e norte-americanas?
Não necessariamente. A proposta é analisar criticamente a origem, os pressupostos, as evidências e os limites das teorias, evitando tratá-las como universais sem considerar o contexto. Conhecimentos produzidos em diferentes lugares podem contribuir para a prática psicológica quando utilizados de maneira fundamentada e contextualizada.
Como a Psicologia Decolonial pode contribuir para o cuidado em saúde mental?
Ela pode ajudar profissionais a reconhecer a influência do racismo, das desigualdades sociais, da cultura e das relações de poder sobre as experiências de sofrimento. Também estimula a revisão de pressupostos, a valorização da autonomia e a construção de intervenções mais contextualizadas.
Qual é a relação entre Psicologia Decolonial e o SUS?
A perspectiva decolonial dialoga com princípios como equidade, integralidade e respeito aos direitos humanos. Ela pode contribuir para a reflexão sobre barreiras de acesso, discriminação institucional e adequação cultural do cuidado, sem substituir as políticas, as normas profissionais ou as evidências que orientam o SUS.
A Psicologia Decolonial é uma abordagem clínica específica?
Não. Ela não corresponde a uma técnica terapêutica única nem substitui automaticamente outras abordagens psicológicas. Trata-se de uma perspectiva crítica que pode contribuir para a formação, a pesquisa, a avaliação e a prática clínica, conforme os fundamentos e as responsabilidades profissionais envolvidos.
Como estudar Psicologia Decolonial?
Uma boa introdução envolve estudar autores do pensamento decolonial latino-americano, pesquisas sobre relações raciais e saúde mental, produções de psicólogos negros e indígenas e documentos profissionais relacionados ao enfrentamento da discriminação. Também é importante relacionar a leitura teórica às práticas concretas dos serviços de saúde.
Referências
- Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 18/2002: normativa completa 20 anos de luta por uma Psicologia antirracista. Disponível em: https://site.cfp.org.br/resolucao-cfp-no-18-2002-normativa-completa-20-anos-de-luta-por-uma-psicologia-antirracista/
- Brasil. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm
- Ministério da Saúde. Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/equidade/publicacoes/populacao-negra
- Dias, M. A. C.; Quadros, L. C. T. “Que Doidice é Essa?”: Recortes do projeto Colonial, Exclusão e Loucura. Revista de Psicologia, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.36517/revpsiufc.15.2024.e024022
